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| @_pizzabacon |
Às vezes eu fecho os olhos e ainda sinto o fantasma do manequim 34,é uma memória palpável: o aperto do jeans skinny, a facilidade de sumir entre as araras de qualquer loja de departamento, a sensação de ser "aceitável" para uma cena alternativa que ironicamente, prega a rebeldia mas idolatra a magreza extrema.A transição para o 52 não foi fácil,foi um processo lento, barulhento e muitas vezes, dolorido.
O Luto da Armadura Antiga
No começo eu sentia que estava perdendo minha identidade, como ser gótica, dark ou cute se as roupas que traduziam isso não me serviam mais? Parecia que o mundo queria me empurrar para o "setor das vovós", com estampas de flores tristes e cortes sem forma, como se ao ocupar mais espaço físico eu devesse me tornar invisível esteticamente.
Mas aí eu olhei para as minhas tatuagens, aquelas que eu fiz aos 28, desafiando quem dizia que "já tinha passado da idade", elas continuavam ali, lindas, se expandindo junto comigo. Elas foram meu lembrete de que a pele é o papel, mas a história sou eu quem escrevo.
Reivindicando o Espaço (e o Espelho)
A aceitação veio quando parei de tentar "caber" e comecei a "existir".
O Peso da Presença: Ser uma mulher negra de manequim 52 é um ato político, quer eu queira ou não. Quando coloco um acessório fofo ou uma bota pesada, estou dizendo que meu corpo não é um erro a ser corrigido, mas um território a ser decorado.
A Curadoria do Olhar: Troquei a validação das redes sociais barulhentas pela paz do meu perfil discreto. Lá, eu não sou um "antes e depois", eu sou o "agora".
Beleza no Contraste: Descobri que o cute fica ainda mais subversivo em um corpo gordo. Tem algo de profundamente poderoso em abraçar a doçura de Minha Adorável Cosplay enquanto carrego a densidade de quase quatro décadas de vivência.
O Novo Figurino
Hoje quando me olho, não vejo "falta", vejo abundância e uma mulher que sobreviveu a cena do metal dos anos 2000, que enfrentou o preconceito da "cena" e que hoje prefere o conforto do seu lar, de seus animes e de seus jogos.Minha beleza atual não é sobre ser "proporcional" segundo algum pensamento ultrapassado,é sobre a harmonia entre o meu tarot, meu controle de videogame e a forma como o tecido (quando finalmente encontro um que me respeite) cai sobre as minhas curvas. Eu não sou mais aquela menina que se escondia atrás de roupas enormes, eu sou a dona da porra toda, mesmo que o mundo ainda tente me vender o manequim 36 como o único adequado e desejável.
O meu tamanho não mudou minha essência, ele só aumentou minha área de impacto!Senta aqui, pega um café (ou um chá) e vamos conversar sobre um dos fantasmas mais chatos da cena: a "polícia da moda".
Se você vive no interior e gravita pelo meio alternativo, sabe do que eu estou falando. É aquele olhar de cima a baixo na praça, aquele comentário passivo-agressivo em fóruns (que hoje viraram panelinhas virtuais) e aquela ideia sufocante de que para ser "trevosa" ou "geek", você precisa seguir um manual de instruções que parece ter sido escrito em 1990 por alguém que nunca viu o sol ou um corpo real.
O Tribunal da Estética
Ser uma mulher negra nesse meio já é por si só, um ato de invasão de propriedade para alguns. Se você adiciona o manequim 52 ao pacote, pronto: você vira o "erro no sistema" deles.
Eu passei pelo Metal Sinfônico, pelo Grunge e pelo Glam,vi as fases mudarem como as transformações das Estações e o que eu percebi? Que a "polícia da moda" adora ditar regras de quem pode ou não vestir o quê:
"Tatuagem depois dos 25? Ah, é crise." (Fiz a minha primeira aos 28 e foi a melhor coisa da minha vida.
"Corpo gordo não combina com estética Cute/Lolita." (Diz isso para o meu vestido rosa da Sailor Moon e meu amor por Minha Adorável Cosplay).
"Roupa preta no calor do interior é falta de noção." (É estilo, amor. O Dante de Devil May Cry não usa sobretudo no inferno? Pois então).
A Resistência do Manequim 52
A maior dificuldade não é nem o olhar torto das pessoas "comuns", o que dói é a exclusão dentro do próprio meio. As lojas nacionais que se dizem "alternativas" e "inclusivas" muitas vezes param no 44. Se você quer um corset, uma saia rodada com pegada dark ou um acessório que não pareça um saco de batatas, você tem que lutar para procurar uma loja com uma boa modelagem que: ou faz até o tamanho G3 ou além disso, faz sob medida.
Eu parei de tentar ser a "gótica magrela" que a cena pedia nos anos 2000, hoje minha estética é um manifesto!Se eu quero usar um laço rosa com uma bota pesada e uma pele preta e bem cuidada, eu vou usar. A profundidade que eu busco hoje na minha vida real, longe do barulho das redes sociais de massa, me ensinou que o estilo é um reflexo da alma, não uma tabela de medidas.
O Final Boss: A Nossa Própria Mente
A parte mais difícil de derrotar, não foi o preconceito alheio, mas a voz interna que dizia que eu "não pertencia mais", mas quer saber? Aos 38 anos, eu sou a mestra da minha própria fase,meu perfil é discreto, meus amigos são reais e meu estilo é uma mistura de tudo o que eu sobrevivi.
Se a moda alternativa não tem espaço para uma mulher negra, gorda e fã de animes/games, então a moda é que está errada, não eu. Eu continuo aqui, com meu Tarot, meus combos de DMC e minha essência que transborda em qualquer manequim.
Parte I da postagem aqui

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