Desabafo: Entre o diagnóstico e o invisível


Hoje ao chegar a essa conclusão, pensei se escreveria aqui ou não, já que tenho uma postagem programada para sábado. Estou tentando não usar um tom amargo, mas certas coisas não são legais e espero que mais para frente, após processar tudo isso, eu consiga escrever sobre temas mais leves  mesmo que de forma espaçada.

Quem acompanha o blog sabe que falo abertamente sobre minhas questões de saúde mental. Bem, eu tive muitas crises recentemente, a depressão é debilitante! Coisas simples se tornam grandiosas, e só quem vive com a doença sabe como é. Em menos de um mês, engordei dois quilos por descontar nos doces e estar sedentária, mas eu não estava assim meses atrás  mais precisamente em janeiro deste ano. Eu fazia pequenas coisas de forma independente: o antidepressivo estava ok, ia ao supermercado sozinha a pé, pedalava dez minutinhos todas as manhãs e estava evoluindo bem na psicoterapia.

Só que fui travando novamente, aos poucos. Parei de ler, de desenhar, de jogar videogame, de pedalar e de assistir às coisas de que gosto. Parei de ir ao mercado sozinha, de atender a porta e por fim, abandonei a psicoterapia. Acreditava eu que era apenas pelo fato de os dois profissionais serem dominados pelo ego, brigarem e não chegarem a um consenso sobre meu quadro, influenciando negativamente na minha terapia.

Mas meu companheiro, conhecendo-me bem (afinal, 16 anos não são 16 dias), insistiu que algo havia servido de gatilho. Eu chegava bem da terapia e de repente, comecei a faltar até parar de vez. Conversamos várias vezes de fevereiro para cá e nada me vinha à cabeça, até hoje. Tive uma crise de choro ao ver minha cachorrinha, que não anda mais, chorando de dor sem que eu pudesse fazer nada no momento. Me acalmei, fiz minhas tarefas, sentei para ver coisas aleatórias para distrair a mente e então, o que me travou finalmente apareceu.

É por isso que reforço: um profissional precisa ter consciência de classe e étnica para não cometer elitismo e racismo estrutural. Desde que minha ex-psicóloga e meu ex-psiquiatra se desentenderam, ela passava as sessões reclamando dele, eu ficava travada, calada. Até que em uma das sessões, ela disse que eu era jovem, não tinha nenhum problema físico e que deveria "arrumar um propósito e trabalhar" (sendo que, no momento, estou parada). Disse que eu era acomodada.

Sabe quando você ouve algo que entra na mente, mas não consegue processar na hora? Pois é. Ela mesma me disse que só trabalhou na profissão em que se formou (neuropsicologia), comparou-me com as filhas dela e em nenhum momento me perguntou se eu me sentia bem com tudo aquilo. Eu travava a sessão toda e quando abandonei o tratamento, ela deixou a entender que também não queria mais me atender. Ela descarregou em mim toda a frustração que tinha com meu ex-psiquiatra, e eu nem sequer percebia durante as sessões.

Eu só tive empregos em escala 6x1, ganhando salário de menor aprendiz ou salário mínimo, sem folgas dignas. Mesmo quando eu estava saudável, era estressante trabalhar no comércio, lidando com o público. No meu último emprego, nem sequer conseguia horário para cursar a faculdade, pois trabalhava de manhã em uma semana e à noite na outra. Depois, comecei a adoecer aos poucos e não conseguia parar em lugar nenhum. Como uma pessoa que nunca conheceu um sistema que adoece o indivíduo pode me dizer o que ela disse?

Minha família não pôde me ajudar financeiramente com os estudos e, mesmo para conseguir uma bolsa, é preciso ter dinheiro para os outros custos. Somente há pouco tempo alcançamos uma vida financeira estável. Não estou aqui para educar ninguém sobre questões sociais, muita gente tem o privilégio de não se preocupar com certas coisas. Eu  no momento, me preocupo em não desestabilizar ainda mais minha saúde mental.

Nunca falei dos meus outros psicólogos aqui, mas meu primeiro psi estava mais interessado em discutir minhas vestimentas do que minha depressão. A segunda gostava de fazer piadas sobre os meus relatos. A terceira ficava tirando a cutícula durante as sessões e não anotava nada no prontuário. O quarto, da clínica onde fiquei internada, seguiu ao pé da letra um diagnóstico dado por um médico que descobri ser um clínico geral atuando como psiquiatra. Denunciei a clínica e fui para essa última psicóloga. Estávamos indo bem, fazíamos testes e tudo fluía... até ela se desentender com o meu psiquiatra. O resto eu já contei.

Sou uma pessoa aberta e disciplinada, mas, justamente por conta da terapia, aprendi a questionar. Não é porque uma pessoa estudou que ela não comete erros, não se baseia em achismos ou não reproduz preconceitos. Estou tentando ser clara sem me expor demais para me preservar. Fiz dez anos de terapia e sinto que vou ter que recomeçar, todo o meu processo anterior foi ruído por conta de ego. Sim, ego. Eu tinha que ouvir minha ex-psicóloga reclamar do meu psiquiatra em silêncio  algo que deveria ter sido resolvido entre os dois. Saí como "acomodada" e  por mais que doa, ela me culpou pela própria incapacidade de lidar com a frustração. Uma frustração causada por outra pessoa  e não por mim, a paciente.

Depois, acabei sabendo que ela não clinicava fazia anos, que havia voltado há pouco tempo e que quase não tinha pacientes. Sinceramente, com toda a franqueza do mundo: como profissional, ela não soube lidar com o fato de o outro médico não ter acatado o diagnóstico que ela apresentou. Isso jamais deveria ter sido depositado em mim.

Fui comparada às filhas dela: mulheres brancas, mais velhas que eu e com privilégios sociais que eu não tive. Fui culpabilizada pela falta de tato emocional de uma profissional e tive que ouvir que tinha capacidade de trabalhar apenas por ter "todos os membros do corpo" e ser jovem.

Às vezes  por sermos leigos, deixamos de questionar a forma como profissionais de saúde nos tratam. Tive que passar por cinco para compreender que algumas condutas e falas são  sim, antiéticas  e que não são um exagero meu pelo fato de eu estar emocionalmente debilitada.

Não precisa ir muito longe, há relatos e relatos que mostram como o sistema e a falta de empatia podem ser tão cruéis quanto a própria doença.

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