Não sei se isso é um desabafo, mas sou uma pessoa que guarda as crises para si. Por vezes falo com meu companheiro e, quando eu ainda possuía uma, com a minha psicóloga (ainda estou na saga de reencontrar uma). É por isso que não faço postagens extraordinárias reclamando das coisas; já vivo meus problemas comigo mesma e não sei o que mudaria na vida de alguém expor tais questões.
Confesso que gostaria muito de escrever sobre a minha estadia em uma clínica psiquiátrica. Quando escrevi sobre isso no meu blog diário, acredito que colocar para fora mesmo que ninguém tenha lido foi um pouco remediador. O que eu gostaria de dizer aqui é o quão difícil é encontrar bons profissionais para me tratar. Não tenho síndrome de protagonista e sei da minha insignificância, mas penso que algumas pessoas conseguem bons profissionais, eu no entanto não tive tal dádiva.
Quando se é uma mulher branca, encontrar uma profissional qualquer já basta, sejamos sinceros... mas quando se é negra, o racismo estrutural modifica a percepção do profissional diante da gente. Muitos possuem uma certa falta de preparo e interesse em se educar sobre essas questões. Não sou eu, como paciente, que devo educá-los e por isso, estou sem amparo no momento. Há certas coisas que só existem em rede social, convenhamos: duas vezes procurei profissionais com bons discursos de acolhimento e "tomei na tarraqueta" sendo paciente deles. Quando procurei uma profissional experiente fora da internet e por indicação, eu com depressão, tive que ouvir que não era "fisicamente incapacitada", vi meu problema ali, sendo diominuído. Além do racismo estrutural, houve um discurso elitista ali, de alguém que nunca trabalhou para além da própria profissão de formação. Já fui escala 6x1 e sei do que estou falando, é desgastante estando saudável, imagine com um quadro de depressão, há dias que sair da cama é uma saga.
Não vou entrar no mérito de falar sobre bons profissionais que estão sobrecarregados com as demandas de pacientes que, assim como eu, estão sem tratamento não por questões financeiras, mas por falta de profissionalismo alheio. Escrevo aqui, acredito, por exaustão e por sentir que não sou a única a passar por isso. Se você é profissional da área e lê o meu blog, por favor, eduque-se sobre diferentes realidades. Não estude apenas seus métodos de abordagem clínica, pois tal alienação social pode prejudicar o tratamento do seu paciente e, posteriormente, o seu próprio trabalho. Questões estruturais de preconceito étnico e socioeconômico não são "frescura"; quem sofre o preconceito sabe como lê-lo, infelizmente.
Eu gosto de escrever sobre coisas leves, pensamentos soltos, mas, por vezes, a mente precisa esvaziar. Talvez com este texto, apenas pelo fato de escrevê-lo, eu não me sinta tão sozinha. Passei pelo luto sem tratamento psicológico e isso acabou comigo. Estou tentando ir um dia após o outro, pesquisando profissionais fora das redes sociais o alcance é mais difícil, eu poderia entrar em detalhes, mas escrever este texto já me basta. Acredito que nenhuma experiência seja única de fato; muitas pessoas já se sentiram culpadas ou mal por acreditarem que o tratamento não funcionou por culpa delas. Mas ter uma abordagem técnica ótima, sem consciência de classe e consciência social, é o mesmo que nada. Falo isso diante da minha perspectiva de mulher negra, que busca apenas o direito de ser cuidada em sua totalidade.
E se você leu até aqui, sou muito agradecida! Nem todo mundo, em pleno domingo, dispõe-se a ler algo desse gênero. Mas confesso que para uma pessoa como eu, reivindicar certos direitos além de frequentemente gerar questionamentos sobre a minha real necessidade nem sempre me é permitido.
Cuidar da saúde mental está longe de ser um luxo, mas ser tratada com humanidade parece ser ainda mais raro. Compreendo que profissionais são humanos, mas tenho discernimento o suficiente para diferenciar sobrecarga de falta de ética. Aprendi desde cedo, a lidar com a exclusão e a ver minha busca por respeito ser lida como 'vitimismo'. Acredito que, se um profissional não tem empatia para entender o que é consciência de classe e o mínimo sobre preconceito estrutural, lidar com pessoas não é para ele.
Aos profissionais que se veem sobrecarregados pela falta de ética e de compromisso de seus próprios colegas, eu compreendo por que muitos de vocês estão desistindo da clínica.
Que o cuidado e a humanidade deixem de ser exceções para se tornarem o padrão.
Volto a programação normal de viagens de ácido e textos menos formais em abril ✌︎㋡
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